Ainda existe muito Egito em mim...

"Então disse o Senhor: De fato tenho visto a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso desci para livrá-lo das mãos dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel" - Êxodo 3:7-8
Quando eu sai do Egito, fui guiado por pessoas que tinham os mesmos rostos, pensamentos e crenças que eu. Fui guiado por homens que, assim como eu, também sofreram nas mãos das tantas coisas erradas que nos ofereciam no Egito.
Lembro-me da forma incoerente que os egípcios viviam, e como eu e as pessoas com que eu convivia tínhamos todos essa mesma forma egípcia de viver.
Lembro-me que em cada canto haviam coisas que mesmo eu sabendo que, por algum motivo, não eram tão coerentes, eu ainda assim participava delas. Afinal, eu vivia em meio a um povo que era por natureza incoerente.
Esses egípcios acreditavam em deuses diversos.
Havia o deus do estudo, que diziam que abençoava quem estudasse muito e colocasse todas suas forças em apenas aprender ciências e coisas baseadas na naturalidade das coisas.
Havia também o deus da oportunidade, que diziam que abençoava todos aqueles que se aproveitavam de alguma oportunidade para se darem bem.
Havia também o deus da vaidade, que diziam que abençoava quem usasse roupas da moda, andasse em carrões caros, tivesse um celular fashion e fizesse lipoaspiração.
Havia a deusa do prazer, que diziam que abençoava cada homem e mulher que buscasse com seu corpo sua realização pessoal, seja com uma violenta noite de orgia, com um relacionamento homossexual, ou mesmo com uma simples transa com a namorada antes de casar.
E além de muitos outros, havia o deus da mentira, o deus do orgulho, a deusa da omissão, e tantos outros. Entretanto, o que mais me intrigava sempre foi o deus da felicidade.
O deus da felicidade era aquele que diziam que abençoava qualquer um que buscasse ser feliz, não importando o que fizesse para ser feliz. Era o deus para qual muitos escreviam livros, com receitas de sucesso e felicidade, como receitas de bolo. Era o deus doutrinava-nos a buscar as soluções de nossas vidas apenas nos livros de auto-ajuda e nos livros de superação humana.
Eu mesmo busquei este deus da felicidade várias vezes. Mas como escravo no Egito, parecia que este Deus só funcionava para poucos, e sempre por um curto período de tempo. E assim, na minha insignificância, nunca entendi bem o que era essa tal felicidade, que quando eu passava por ela e notava que ela passava por mim, logo ia embora.
E assim a felicidade plena que diziam que este deus nos daria eu nunca vi alguém realmente alcançar.
No fundo, noto que eu, de ter nascido no Egito e vivido tanto tempo no Egito, ainda tenho muito destes deuses na minha vida. Mesmo hoje em dia, quando já saímos daquela terra de muitos deuses, ainda eu carrego comigo os conceitos incoerentes de cada um destes deuses. Eu ainda, na minha essência, sou egípcio.
Em diversos momentos eu me pego pensando nesses deuses que um dia eu, junto a uma porção de pessoas, tomei a decisão de abandonar no Egito. E não sendo o bastante, muitas vezes ainda me pego recorrendo a estes deuses, como forma de tentar me acalmar ou alcançar algo que não tenho tido paciência em esperar.
"Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim". Foi o que o verdadeiro Deus nos ordenou, e eu muitas vezes, infelizmente me esqueço.
Ainda existe muito Egito em mim...









